Neném Prado (in memoriam)


1 de agosto de 2016

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In memoriam
Uma singela homenagem dos colaboradores do Giraboi Leilões

 

Neném Prado (in memorian)

Nascido em Corumbaíba – Goiás, em 18 de janeiro de 1946. Seu nome completo é Leonardo Alvarenga Prado. Aos seis anos, foi morar em Tupaciguara – Minas Gerais, onde já era conhecido como comissário de boiadas.

Seo Nenê conta que sempre gostou muito de lidar com boiadas, viajando com o seu pai desde os sete ou oito anos de idade, quando aproveitava as férias escolares – é ex-aluno do Lyceu de Goiânia. Conta Seo Nenê que abandonou a escola na oitava série, pois gostava mesmo era da lida com gado, mas que seus irmãos Valico e Zim continuaram, tornando-se médicos.

Com 17 anos, em uma viagem com o pai ao Rio Verdão, próximo à cidade de Rio Verde, na ausência do capataz responsável por contar o gado, ele teve a sua primeira experiência em contar os 1.300 animais daquela comitiva. Ao final da contagem, disse que faltava um boi, foi quando seu pai mandou o arribador (tropeiro cuja função é retornar à cata de animais desgarrados da tropa em marcha) procurar e o encontraram em menos de 500 metros. Disse que ali nasceu a confiança de seu pai em seu trabalho.

Já com 18 anos comprou uma tropa – fiado – do pai e começou a trabalhar. Na época, relata Seo Neném, os peões eram na sua maioria do Estado de Minas Gerais. Goiânia, em 1964, era ainda uma cidade pequena, onde havia, no máximo, umas 30 comitivas e os negócios eram tradados na Rua 7, no Café Central; ali era feita a contratação entre o comprador do gado, o fazendeiro, o comissário e o peão. A maior movimentação que existia era nos sete voos do táxi-aéreo que ficava na proximidade do centro, para ver gado.

Até o início dos anos 1970, as viagens eram para levar boi magro para São Paulo, Paraná e sul do Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul). Relata Seo Neném que eram 40 dias até Barretos e 80 dias para Rancharia (São Paulo). Da década de 70 e diante, levava muita fêmea para o norte, para formar rebanhos. Eram viagens para Redenção, São José do Xingu (que era chamada Bangue-Bangue), Vila Rica e Marabá, no Pará. De 80 em diante Goiás começou a engordar gado, diminuindo as viagens para São Paulo e o sul, ficando as do interior do Estado e para o Norte.

As viagens preferidas de Seo Neném era para o norte, onde havia menos gente, solidão, e o gado viajava mais tranquilo, com muita travessia de rio, onde um peão que nadava bem levava a ponta de uma corda, amarrando-a do outro lado, por onde era levado os apetrechos da cozinha, roupas, bruacas, tudo envolvido em um plástico ou couro. Era uma verdadeira festa, que consumia o dia todo.

Seo Neném desmitifica o conto do boi de piranha. Segundo ele, o barulho da boiada espanta os peixes e piranha dá em lagos do Araguaia, os quais ele sempre evitava passar por perto.

O bom Comissário de Boiada é como técnico de futebol, tem de aproveitar o potencial de cada peão, cada um na sua posição, de acordo com o temperamento: tem aquele que é mais tranquilo, mais calmo, colocava-se na culatra; o mais agitado, mais ativo, ia para a guia.

De outras viagens que mais gostava era a para o Pantanal e para a Ilha do Bananal, onde havia mais natureza, menos gente, o fado ficava mais dócil. Fica na lembrança desse grande comissário um tempo de muitas dificuldades, mas também de muitas alegrias, cujo único arrependimento foi não ter viajado mais.

Fonte: Dados coletados no livro “Memórias – Boiadeiros do Cerrado” de André Monteiro, Instituto Brasil de Cultura, Goiânia 2010.